Avoando
- Quando o almoço será servido? - Perguntei eu, à aeromoça.
- Logo senhor. Por favor tenha paciência.
A aeromoça foi embora. Eu voltei minha atenção à janela. Um bebê começou a chorar, longe. Era incômodo, mas suportável. Uma criança atrás de mim, com fome, começou a espernear - literalmente -, querendo comer. Massagem nas costas durante um vôo, maravilha!
A criança começou a gritar, e chorar. Agora a coisa estava ficando semi-suportável. Duas horas se passaram, e a aeromoça ainda estava na cabine do piloto, fazendo-se sabe lá o quê.
A criança continuava a espernear, gritar e chorar. O bebê continuava a chorar, agora mais alto. o limite do suportável estava começando a se romper.
- Daqui a pouco, senhor, por favor, tenha paciência. - Eu havia chamado a aeromoça novamente. Ela tinha o uniforme bagunçado, estranhamente.
- Daqui a pouco? Você disse isso há duas horas!
A aeromoça foi embora novamente, e eu estava à beira de um ataque de nervos. À beira, felizmente, ainda era suportável. A criança que esperneava jogou algo em minha cabeça, que caiu na minha mão. O suportável ficou insuportável. Levantei-me, e berrei o mais alto que pude. Eu vi a aeromoça correndo em minha direção, sem o chapéu. Fiquei confuso.
- Senhor, por favor, abaixe a arma! - Olhei minha mão, confuso. Vi na mão direita uma arma de brinquedo, que a criança havia jogado em mim. Meu olhar voltou à aeromoça.
- Diga-me, quando o almoço será servido? - Eu apontei a arma para a aeromoça, irritado.
- Logo, senhor, logo. - E voltei a me sentar.
***
Céu Infernal
Um dia desses, eu resolvi morrer. Não na vida real, claro, em imaginação. Cheguei aos portões do céu, e São Pedro veio me atender.
- Ah, olá! Você é Victor Fischer Biancardine, certo?
- Sou! - Respondi, entusiasmado. Quem não estaria?
- Ah sim, você é um escritor! E um bom, pelo visto (Ei, o sonho é meu. Eu posso matar pessoas com o olhar, se eu assim quiser, num sonho.)! Para os escritores, seres filosóficos e *chatos* (Ele tossiu), nós damos uma escolha: Ir para o Inferno ou o Céu.
- Que escolha óbvia! - Respondi, sorrindo.
- Sim, sim. Mas, por política da empresa, pedimos que o senhor visite os dois antes de escolher.
- Tudo bem, parece justo.
E fomos para o Inferno. Lá encontramos o Diabo, que explicou como o Inferno funcionava.
- É o seguinte - Explicou o Diabo, cansado. Parecia que ele detestava explicar sobre o Inferno
- Todos os dias, de 6 da manhã ao meio-dia, todos no Inferno recebem escoldas. Do meio-dia até às 6 da tarde, São chicotadas, com cera quente nas feridas. Das 6 da tarde até meia-noite, é tempo de descanso dos demônios. Então nós mergulhamos todos numa panela cheia de lava, e as deixamos lá até meia-noite.
- Da meia-noite até as seis da manhã, você descansa. Te pomos num freezer com temperatura de -256 ºC. Alguma pergunta?
Eu ainda estava meio embasbascado, mas consegui formular uma pergunta.
- Por que -256 ºC?
- Originalmente - O Diabo explicou, querendo parecer entediante. Conseguiu. - Eram -666 ºC. Mas aí um idiota quebrou o freezer, e agora essa é a temperatura mínima que ele chega.
- Por que não consertam?
O Diabo pareceu ficar furioso. São Pedro tratou de me tirar dali. "Ligeiro" Disse ele. Voltamos aos portões do Céu.
- Uma dica: Nunca pergunte ao Diabo por que seu freezer está quebrado. - Explicou São Pedro. - Agora, vamos ver o céu.
Ele então abriu os portões do céu. Dentro, vi um vazio branco de nuvens.
- No Céu - São Pedro começou a explicar, animado. - Você pode fazer tudo que é considerado Cristão e puro.
- E isso se resume a...? - Eu perguntei, aflito.
- Rezar. E descansar eternamente. A maioria faz o segundo.
- Não me surpreende. Mas, então, nada daquilo de fazer tudo o que você quiser, sem problemas?
- Está achando que isto é o Inferno? Aqui é um local sagrado!
Eu pensei longamente.
- Então - São pedro perguntou. - Posso lhe registrar no Céu?
- Não. - Eu respondi. São Pedro parecia surpreso. - Me registre no Inferno. É menos tortura.
***
Biancardine, OUT!
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