quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Foda-se


Prelúdio: Foda-se

Vamos fazer um jogo: Você me diz três coisas que você ama, e eu te digo três motivos pelos quais você é um idiota. Eu sei, você está ofendido, mas, para ser honesto, eu não poderia me importar menos com você. Se você está lendo isto, meu caro amigo, é porque você ainda não me conhece. É porque você ainda não sabe o que é esta bola de merda infectada chamada "Vida".

Eu poderia falar algo de "Tudo começou quando", mas... Isso é retardado. Eu poderia relatar o que levou à isso, mas isso também seria retardado, sem contar que demoraria um bocado. Eu posso falar de minha infância, se você quiser. Ela foi marcada por três momentos separados, e nesta ordem: O momento que eu nasci, o momento que meu pai morreu e o momento que eu aprendi para quê servia meu pau.

Mas vamos falar de você: Você, por acaso, é feliz? É, imaginei que não. Se serve de consolo, ninguém é. Sabe aquelas merdas que enfiavam na sua boca de que você era especial? Quanto tempo demorou pra você ser desiludido? Para mim demorou até eu arranjar um trabalho escrevendo obituários. Mas tem lá suas vantagens, como, por exemplo, na morte de seus amigos:

Morreu hoje Alexandre Ernesto Ribeira, vítima de AIDS. Sua mulher ficou chocada ao descobrir do caso que seu marido mantinha com um travesti da área pobre da cidade, mas diz que manterá o funeral de qualquer forma. É incerto se ela chamará o amante, mas presume-se que ele não será convidado para a cerimônia.

Desse texto, trinta porcento é verdadeiro. E antes que atirem uma pedra, se você não morre nem vive com dignidade, não merece um obituário digno. Aposto que, quando eu parar de chupar o pau da vida, meu cartório será parecido, ou até mesmo pior. Ei, você ainda está aqui. Parabéns. Já que você foi um bom garoto, eis um presente.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

O Prisioneiro

Olá?
Tem alguém aí?
Quando eu voltei de lá?
Quando foi que eu caí?

Aonde eu estou?
Por que estou sozinho?
Alguém sabe me dizer aonde vou?
Alguém sabe o caminho?

Aonde estão todos?
Aonde estão seus modos?
Não me deixem falando comigo.
Não me deixe no escuro, amigo.

Tem alguém me ouvindo?!
Respondam!
Sei que me ignoram.
Como assim, você está indo?!

Eu não quero ficar aqui.
Não posso sair daqui.
Não vou ficar trancado.
Como um objeto encontrado.

Me respondam.
Estou cansado.
Não estou brincando,
Apenas respondam...

Eu sei que errei...
Eu sei que errei...
Eu sei que errei...
Mas, por favor, respondam.

Respondam!

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Insira Título Provocativo Aqui

Eu acordei. Estava escuro. Ao fundo, alguns sons se faziam ouvir. Eu abri os olhos. Ainda estava escuro. Eu levantei uma mão. Não estava amarrado. Ok, então eu já estava parcialmente bem. Tentei levantar uma perna. Não consegui. Estava sentado, com as pernas presas. Provavelmente era refém de algum vilão do mal, ou robô. Ou, se minha sorte estivesse se sentindo alegre (Leia-se: Dopada), uma mulher sem muitos escrúpulos e que iria me manter refém para chantagear meu jornal, e dividir o lucro comigo.

Então uma luz se acendeu, destruindo tanto minha fantasia da mulher chantageadora quanto minha ilusão de não estar de ressaca. Eu xinguei alto, conforme esfregava meus olhos com desdém. Olhei para o que estava prendendo minhas pernas: Minha mesa.

"Bom dia" Era o Sérgio, meu editor. O que diabos ele estava fazendo na minha casa/calabouço aonde eu estava aprisionado?
"Não grite. O que diabos você está fazendo na minha casa? Ou neste calabouço?"
"Bem, você está metade certo. Você está no seu escritório. Passou a noite aqui."
"Ah. Eu estava acompanhado?"
"Sim, claro. Por três super-modelos e a Scarlett Johansson" Ele sempre sabia quando mentir para me agradar.
"Faz sentido." Mas eu nunca iria deixar ele ficar feliz em me agradar. Que tipo de amizade seria essa? "Me passe meus óculos, por favor."
"Aqui." Ele me passou meus óculos, daonde faltava uma lente. Maravilha. De qualquer forma, os coloquei, fingindo não perceber a lente faltando. "Sabe, os jornalistas estão começando a achar que você tem glaucoma."
"E por quê eles achariam isso?"
"Por causa de... Você sabe, quase sempre estar de óculos."
"Ah. Bem, melhor do que acharem que sou alcoólatra." Eu tinha um acordo com Sérgio: Se ele me chamasse de alcoólatra, seria jogado aos tubarões convenientemente colocados no piscinão de ramos (Uma pessoa faltando, duas... Quem iria notar? De fato, eu sinto pena é dos tubarões) "Me passe um café, vai."
"Aqui, com muito açúcar"
"Obrigado, secretária."
"Cale a boca." Eu tomei um gole do café. Precisava de mais açúcar, e estava quente demais. Murmurei uma coisa sobre açúcar, e coloquei-o no Lucas, minha mesa (Devido a cortes no orçamento, fomos obrigados a promover nossos estagiários para mobília). Ele tremeu um pouco com o calor, mas depois se manteve firme.
"Então, o que te traz até mim nesta adorável Quinta-Feira de tarde?" Eu sorri da maneira mais falsa que pude.
"É Terça-Feira, são nove da manhã, e você ainda não me entregou sua crônica para amanhã." Merda. Eu tinha esquecido completamente dela.
"Merda! Steve, seu computador inútil!" Eu dei um tapa na cabeça de Steve, o estagiário que era meu computador na hora de escrever. Ainda bem que não era Júlya, a estagiária que era meu computador na hora de ver pornografia. Eu já posso ser preso por muitas coisas, mas preferiria que "Espancador de mulheres" não estivesse na lista. "Está demitido!" Os olhos dele se encheram de esperança.
"Jura?!"
"... Não." A esperança dele foi completamente destruída, como sempre. "Agora vá me trazer mais açúcar, e, depois disso, se espanque no corredor."
"Victor, é sério. Você precisa me entregar a crônica até hoje de tarde."
"Hey, chefe" Sempre que eu estava prestes a fazê-lo levar a mão à face, eu chamava-o de chefe. Ele já havia preparado sua mão "Se importa se eu fizer uma crônica erótica?" E bam! Ele levou a mão à face.
"Óbvio que eu me importo. Você não pode fazer uma crônica de sexo."
"Isso é algum tipo de censura?!" Me levantei da Cyrlene, que caiu no chão, exausta, e fitei meu chefe.
"Victor, você sabe que não pode fazer nada explicitamente sexual. Você já vem forçando a barra ultimamente. Relaxe um pouco. Escreva sobre... Gaivotas." Eu gostei da idéia.
"Gaivotas? Parece uma boa idéia."
"Viu? Não é tão difícil."
"Uma orgia de gaivotas no meio do oceano Pacífico... Ou Atlântico? Em qual oceano têm gaivotas? Espera, gaivota é um peixe, certo?"
"Biancardine..."
"Você está me censurando!" Eu gritei, trazendo a atenção de todos os jornalistas, colunistas, estagiários, mendigos que alugavam nossos estagiários como camas (Exceto pelo mendigo-colunista Sandro, que estava dormindo profundamente sobre Fábio)
"Hey, hey. Não estou te censurando. Apenas te pedindo para ser razoável."
"Não, Sérgio. Essa foi a última gota. Agora é pessoal. Agora é uma questão de honra! De liberdade de expressão! De pornografia jornalística! Você e eu, um duelo. Aqui, agora."
"Você deve estar brincando"

Não houve resposta. Eu fiz a cara mais assustadora que podia, enquanto fitava-o furiosamente. Ao fundo, um grupo de estagiários levemente afinados entoavam The Trio de Ennio Morricone (Cortes no orçamento nos obrigaram a vender nosso sistema de som 5.1, junto com alguns CD's do Fabiano. A maioria eram álbuns repetidos do Justin Bieber, então não houveram muitos protestos - Exceto do próprio Fabiano, claro) Em um momento de tensão semi-nula, Sérgio e eu nos encaramos. Eu me preparando para atacá-lo com Caio, o ex-segurança que resolveu fazer jornalismo, e ele pensando se o seguro dele cobria ataques de colegas de trabalho claramente insanos insanos.

Por fim, ele riu, e eu atirei o Caio em cima dele (Leia-se: Ameacei Caio com uma ordem de demissão e obriguei-o a se jogar em cima do Sérgio). Ele desviou completamente do destrambelhado, e balançou a cabeça, obviamente reprovando meus métodos de tratamento com estagiários.

"Ok, dane-se. Faça sua crônica erótica. Eu vou editar todo o conteúdo pornográfico fora de qualquer forma."
"Isso!" Eu comemorei. O grupo de estagiários encarregados de cantarem então começaram a entoar Don't Stop Believing, que era a música errada (A correta seria Eye of the Tiger). Eles seriam demitidos por tal incompetência. Ou então obrigados a cantar Lady GaGa em frente à casa do Sérgio durante uma noite inteira, ainda não me decidi. "Obrigado, Sérgio! Você não vai se arrepender!"
"Não vou?" Ele pareceu confuso.
"Er... Ok, você vai. Muito. Mas ainda assim, vai ser divertido!" Ele me olhou, sem esperanças. Não iria ser divertido. Por fim, ele saiu, me deixando a sós com minha possível genialidade. Eu tinha a chance de escrever a crônica erótica do século!

Sentei-me na minha nova cadeira, Karen (Quem foi que disse que sou cruel com estagiários?) E chamei ambos meus computadores. Então minha mente ficou em branco. Toda aquela inspiração possivelmente pornográfica havia sumido. Nem mesmo com o auxílio de Júlya a situação melhorou. Mas, por final, sendo o homem calmo e sensato que sou, eu escrevi uma crônica (Esta, e só depois de ter gritado tanto com meu computador que ele começou a chorar). Semana que vêm, quem sabe, eu não escrevo a crônica erótica? (Nota do editor: "Não, não vai." Já disse que meu editor é um tirano que censura a verdadeira arte?) De qualquer forma, espero que tenham apreciado esta crônica. E, se algum de vocês for do departamento de direitos humanos e tiver ficado chocado com meus métodos de treinar estagiários... Bem, terão que passar pelo meu castelo construído com carteiros antes.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Missão Possível Porém Altamente Improvável: Invadindo os Estúdios da Globo RJ

"E vocês vão ficar aí até resolverem suas diferenças, ou um devorar o coração do outro, emergindo vitorioso. Entenderam?" E tranquei a porta da Sala de Discussões.

A Sala de Discussões era um escritório pequeno abandonado, que muitos diziam ser mal-assombrado. Eu discordava disso, pois já dormi naquele escritório várias vezes, e só acordei ao lado de uma mulher transparente uma vez (Ou poderia ser uma modelo anoréxica, eu nunca sei a diferença). Uma vez, quando eu estava com uma ressaca infernal, eu ouvi um casal gritando nos cubículos aonde ficavam os jornalistas (Todos os colunistas da Nave da Loucura dividem um escritório, pelo simples fato de que os jornalistas têm medo de ficar perto de mim - E não sem motivo, devo admitir).

Eu fui para o escritório dos colunistas, dando um tapa no Fabiano e um soco no Sandro (Era Segunda-Feira, então eles com certeza fizeram algo para merecer. Especialmente o Sandro), e me sentei na minha cadeira, notando a ausência de gritos horrorizados por parte dos discutintes (Eu havia contrabandeado um tigre para a Sala de Discussões).

"Victor" Meu editor, Sérgio (Eu anotei o nome dele em sua testa com um marcador permanente para que pudesse me lembrar) chamou minha atenção. Eu atirei o meu grampeador nele, que habilmente desviou, já esperando o ataque. "Você soube que um dos atores da novela RETIRADO PELA GLOBO POR MOTIVOS DE COPYRIGHT foi pego roubando?"
"O quê?!" Eu pulei na cadeira, ainda atirando coisas aleatórias no Sérgio. Uma vez, eu o ataquei com um guaxinim "Ele foi preso?"
"Não, e - Ah, pelos céus. Ponha ele no chão!" Eu olhei para o que segurava acima de minha cabeça. Era um dos estagiários, horrorizados. Ele havia urinado em si mesmo. Sem dar ouvidos à Sérgio, atirei-o no chão. Era um estagiário, afinal de contas.
"Eu não sei como que você evita processos judiciais." Sérgio levou a mão à face.
"Eu tenho uma amiga que é uma juíz... E uma amiga que é policial... E uma amiga que é advogada."
"Ah. Isso explica. Falando nisso, eu vi que você trancou dois jornalistas na Sala de Discussões."
"Sim," Eu cocei o queixo, ainda tentando ouvir o grito de terror dos dois "Mas acho que o tigre ainda não acordou."
"Eu doei o tigre para um zoológico ontem."
"Você doou o Sr. Bigodes?" Eu estendi a mão, indo pegar meu guaxinim no palito e fazendo Sérgio ficar nervoso.
"Nós tivemos que" Ele girou as mãos como se "Nós" fosse um termo para "Eu estava morto de medo do tigre".
"E o lêmure? Você também doou o lêmure?"
"Não. Minha filha adora ver ele, então deixei ele ficar."
"Ufa."
"Por que, 'Ufa'?" Sérgio desconfiou de minhas intenções, não sem motivo.
"Nada, é que hoje de manhã eu dei Ecstasy com LSD para o Lêmure"
"Você..." Nesse momento, um grito de horror terrivelmente satisfatório percorreu o andar "Você deu Ecstasy e LSD para o lêmure? Por que?"
"Hey, e você doou o Sr. Bigodes. Estamos quites. E o porquê, meu caro amigo Sérgio, é que eu estou treinando ele. Toda vez que ele atirar fezes em você, eu vou dar para ele a dose preciosa dele. Mas para isso, claro, eu tenho que viciá-lo."
"Biancardine" Sérgio levou a mão à face novamente "Lêmures não atiram fezes. Babuínos atiram."
"Ah. Entendi. Podemos contrabandear um babuíno?"
"Não." Nesse momento, eu bati no Sérgio com meu Guaxinim no Palito (Para ser patenteado)
"Bem, estou indo nessa, Sérgio."
"O quê? Aonde você vai?"
"Globo. Vou rodar essa matéria, e vou conseguir algumas entrevistas."
"A matéria do roubo? Mas o ator simplesmente roubou um pedaço de goma de mascar!"
"Foda-se! Eu quero uma crônica, e essa será ela!"

Eu vesti meu fedora e sobre-tudo (Apesar do calor infernal, eu gosto de me vestir como um jornalista sério), e fui para as ruas (Ruas lendo-se: "Estúdios da Globo"). Dirigi meu ônibus (Leia-se: Sentei ao lado de um mendigo se masturbando e de uma mulher obesa que ficava dormindo no meu ombro) até os estúdios, e assim que entrei, pensei nas alternativas que tinha para conseguir uma entrevista sem ser nocauteado e ter um de meus rins roubados (De novo).

Após vários minutos (Três segundos, que foi o tempo que levou para eu tomar um bom gole de Jack Daniels), eu corri em câmera lenta para dentro dos estúdios, firme na minha esperança de ser um filho bastardo de David Hasselhoff, e ter herdado os poderes mágicos dele de Baywatch. Para meu desapontamento, não havia uma Pamela Anderson para me dar assistência.

"Eh... Com licença, senhor?" A secretária interrompeu minha corrida em câmera lenta até a porta. Aparentemente, eu não sou filho de Hasselhoff. Eu tentaria correr pelas paredes feito o Neo, mas a idéia de ser filho de Keanu Reeves me apavora.
"Sim?" Eu abri o sorriso mais encantador que podia. Ela ficou vermelha. Excelente sinal.
"Senhor, aonde estão suas calças?" Eu olhei para baixo, e me vi de cuecas e sobre-tudo. Felizmente, ainda estava de fedora.
"Eu vendi para comprar uma passagem de ônibus" Infelizmente, eu não estava mentindo.
"Eh... Por que?" Ela ficou ainda mais vermelha. Aumentei meu sorriso.
"Sou jornalista." Respondi, simplesmente.
"Ah, compreendo."
"Então, eu posso entrar?"
"Pode." Eu pisquei os olhos, incrédulo.
"Jura? Quero dizer, eu sei que posso, mas... Se importa de dizer o porquê?"
"Bem... Você não está aqui pelo tour?"
"Sim! Claro! O Tour! Sabe, se eu não tivesse meu caderno de anotações" Eu mostrei um guardanapo manchado de cerveja com alguns rabiscos nele "Seria incapaz de escrever uma matéria sequer."
"Bem," Ela deu uma risada. Excelente sinal "O grupo já saiu, mas acho que você ainda pode alcançá-los se correr."

Eu dei um último "Até mais" para a secretária, e, quando ela disse "Não" para minha pergunta sobre irmos num local aonde não haviam câmeras de seguranças (Mas hey, ela me deu um "Mais tarde, quem sabe" também, então é meia-vitória), fui até o camarim do ator ladrão da maneira mais discreta quanto possível. Um esforço provado inútil, já que eu estava cantarolando a música do Missão Impossível.

Quando eu estava na porta do ator, eu dei dois toques na porta. De dentro, veio a voz "Quem é?". Pensando rápido, eu respondi "Serviço de quarto" (A Globo tem um serviço de prostitutas que são entregues à domicílio, né?). Após um silêncio desconfortável, a voz respondeu fracamente: "Entre." Com um pulo, eu abri a porta do quarto, praticamente berrando "Como você se sente sendo um ladrão de goma de mascar?". Então tudo ficou escuro.

Eu acordei horas depois, numa banheira cheia de gelo. Na minha testa, estava um bilhete dizendo "Melhoras" com o símbolo da Globo logo abaixo.

... Filha da mãe.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

A Vida de Dave McCloud

Dave se vestiu, sorrindo. Saiu de seu prédio, e entrou no Metrô de Nova York. Mantendo o sorriso, saiu do Metrô e entrou no prédio aonde trabalhava. Ignorou seu chefe, e subiu até seu escritório.

No escritório, ele ajustou sua gravata, retirou o paletó, abriu a janela de seu escritório, e subiu. Virou-se, e, abrindo um sorriso para seus colegas de trabalho exasperados, deixou-se cair para trás.

O telefone tocou. Um jovem, dormindo em sua cadeira, rosnou e virou-se, voltando a cair no sono. O telefone tocou outra vez. Ele se levantou, irritado. O telefone tocou uma última vez, e o jovem atendeu.

- Alô?
- Detetive Harrison! - Era sua secretária.
- Betty, o que eu te disse sobre me acordar de manhã?
- Eu sei, Sean, mas o detetive chefe Gus ligou. Ele quer que você vá para a rua Hayton, perto do Times Square. Disse que você vai saber quando chegar.

Sean Harrison desligou o telefone, sem se despedir. Ultimamente seu chefe tem lhe importunado descomunalmente. Ele pôs seu sobretudo - Era inverno - E saiu às ruas, dirigindo seu velho Chevrolet.

Na neve fina de Nova York, sorrindo alto para os céus de forma que aterrorizava Sean, estava o cadáver de Dave McCloud. Gus estava logo ao lado do corpo, e, tomando um gole de café, chutou de leve a cabeça dele.

- É assim que você trata os recém-partidos? - Sean interrompeu-o, claramente  irritado.
- E o que importa? Recém-partido ou há muito enterrado, todos fedem.
- Diferente de você, acredito.
- Muito engraçado, Sean.
- Então, qual é o caso?
- Não tem caso, esse palhaço se jogou.
- Por que você me chamou aqui, Gus? - Ele estava sem paciência para as idiotices de Gus.
- Como vai a esposa, Sean?
- Vai bem, mas não é mais minha esposa. Você sabe disso.
- Sei. Eu vi você dormindo no escritório, chorando o nome dela.
- Por que você me chamou aqui, Gus? - Sua paciência havia se esgotado.
- Eu queria que você soubesse como você ficaria se decidisse sair da maneira fácil. Não é uma vista bonita.
- Existe algo nesta cidade que seja?
- Talvez não, mas um jovem de vinte e sete anos se matando porque sente saudades da esposa não vai ajudar a paisagem, vai?
- Eu não vou me matar, Gus.
- Assim você diz. Enfim. Eu tenho que ir cuidar de alguns casos de verdade. Faça-me um favor, e preencha a ficha de ocorrência dele. Questione testemunhas, etc.

Gus deixou Sean ao lado do corpo, junto com seu copo vazio de café. Sean se ajoelhou, fechando os olhos sorridentes do cadáver. Gus nunca dava conselhos sem ter um forte auxílio visual.

Michelle era uma garota de cidade pequena, do tipo que nunca conheceu nada que estivesse fora do alcance das ruas aonde crescera. Quando um homem de Nova York apareceu em sua vida, ninguém se surpreendeu quando ela largou tudo para segui-lo, apesar de ter apenas quinze anos.

Ela esfregava as lágrimas furiosamente, tentando não lamentar a morte de seu amante, dividida entre odiá-lo e amá-lo. Odiava seu trabalho na cafeteria, e tinha o sonho de que seu amante iria levá-la para longe. Seus sonhos foram destruídos, como o barulho que Sean fez ao esbarrar em uma das garçonetes.

- Com licença, - Sean chamou a atenção de Michelle - Eu gostaria de um copo de café.
- Tudo bem. Vai querer com adoçante ou açúcar? - Ela tentou manter seu profissionalismo, apesar das lágrimas que rolavam por seu rosto.
- Está tudo bem com a senhora? Está chorando.
- Não, eu estou... - Ela lançou um olhar aonde o corpo de Dave estava minutos atrás, e soluçou, tentando conter o choro. - Estou bem.
- A senhorita conhecia Dave McCloud?
- Não! Quero dizer... Sim, eu conhecia. Me desculpe, é que eu era a... - Ela engasgou.
- Você era a...?
- Eu era a amante dele.
- A amante dele? Então você pode me dizer aonde ele morava?
- Não! Eu...
- Por favor - Sean segurou na mão dela, fitando-a nos olhos - Qualquer informação poderá ser crucial para minha investigação.
- Tudo bem. - Ela respondeu, depois de alguns segundos - Ele morava na rua Holt, número 55, apartamento 901.
- Obrigado. Aqui, tome meu cartão de trabalho. Caso precise de ajuda, ligue.

Sean foi embora, deixando a pobre garçonete com seus próprios demônios para lutar. Ele seguiu à pé para a rua indicada, e, chegando no prédio, tocou o interfone do 601. Quem atendeu foi uma mulher com uma voz sedutora.

- Alô? Quem está aí?
- Alô. Aqui é o Detetive Harrison, da Polícia de Nova York. Eu gostaria de lhe fazer algumas perguntas acerca de Dave McCloud. - Sean percebeu que possivelmente seria o homem que contaria para ela sobre a morte de seu marido.
- Dave? Tudo bem. - A voz melodiosa dela alterou-se ao ouvir o nome do marido - Suba.

Scarlett, ao contrário do que o nome fazia acreditar, era uma loira. Seus lábios carnudos encantavam Sean, e lembravam-no de uma paixão antiga que tivera quando o mundo ainda era colorido para si.

A jovem mulher havia gostado do detetive. Seu marido não lhe importava mais, estando sempre com sua amante. Ela teria deixado-o, mas sua criação advertia-lhe contra.

Havia nascido e crescido em Nova York, e sua família sempre tivera dinheiro sobrando. Seu pai trabalhava com bolsas de valores, e sua mãe era uma dona-de-casa.

- Senhorita...
- Scarlett. O nome é Scarlett.
- Senhorita Scarlett McCloud, meu nome é Sean Harrison, do departamento de polícia. Eu sinto lhe informar que... Seu marido, Dave McCloud, faleceu esta manhã.
- Minha... - A expressão de Scarlett se alterou completamente - Minha nossa. Como?
- Suicídio, é o que imaginamos. Ele contemplava se matar?
- Não. Ele era feliz. Pelo menos era o que eu achava. Ele sempre saía de noite, fosse comigo ou com aquela rameira que ele chama de "Michelle". E algumas vezes saía sozinho, e voltava tarde.
- Você sabia da amante dele?
- Sim, eu sabia. Sentia pena da coitada, se deixando levar pelas promessas vazias dele de levá-la para conhecer o mundo.
- Mas não fazia nada?
- Não era a coisa certa a se fazer. Mamãe sempre me dizia: "Obedeça seu marido! Ele te alimenta e te dá um teto, você deve sua vida a ele!"
- Entendo - Sean coçou a testa - E ele não fazia nada que lhe... Parecia estranho?
- Agora que você diz... Ele mantinha um diário. Nunca deixava eu ler, então eu não sei o que pode ter nele. Mas, se você quiser ver, não posso lhe impedir.

O diário era, por falta de uma expressão melhor, uma bagunça. Como as memórias de um homem insano. Sean notou, no entanto, que Dave era obcecado com algum tipo de "Ilusão". Sem conseguir uma resposta melhor, fechou o diário.

- Então, tem algo aí que vá lhe ajudar? - Sean assustou-se com uma Scarlett esperançosa. Mas se assustou ainda mais com sua lingerie com ainda mais esperança.
- Não. Tudo que ele escreveu é muito confuso. Mas obrigado mesmo assim, e... - Scarlett havia se aproximado de forma perigosa. Seu corpo lúgubre se mostrava encantador pela transparência da roupa - Eu tenho que ir embora.
- Tem certeza? Não pode ficar mais um pouco? Por favor, faça um pouco de companhia a esta pobre viúva.
- Bem, eu... - Já era tarde demais. Sean deixara-se seduzir.

Ele saiu do apartamento duas horas depois, cansado e sentindo-se culpado. Nunca deveria se envolver com viúvas, ainda mais viúvas emocionalmente abaladas, e sabia disso. Deixou seu telefone na mesa da sala, por pena de Scarlett.

- Descobriu alguma coisa? - Gus, seu chefe, o interceptou ao caminho de seu escritório na Delegacia.
- Nada de interessante. Acho que Dave era meio doido.
- Meio doido? - Coçou o queixo.
- Eu investiguei a casa dele - Sean continuou - Ele mantinha um diário.
- Nada de doido nisso. Um pouco feminino, talvez, mas nada de doido.
- Ele era obcecado com uma tal "Ilusão". Na última página, ele começou a repetir "Descobri, descobri!", e a data era a do dia anterior à morte dele.
- Huh - Gus tomou um gole de café - Acho que já sabemos então o que fez ele fingir que era um frango e tentar voar.
- Frangos não voam.
- Muito menos Dave.
- Suas piadas às custas dos mortos sempre me deixam desconfortável, sabia disso?
- Melhor que suas sobre malditos carros de corrida. Mas, sobre outros assuntos: Como vai a esposa?
- Vai bem. Está no Caribe com o novo namorado.
- Não diga - Gus disfarçou surpresa - Mas sabe como é: Um detetive está fadado a perder mais mulheres do que casos - Na mente de Sean, Gus tinha uma ex-mulher para cada fio de barba mal-feita que ele usava com orgulho.
- Bem, Gus, se isso é tudo, eu tenho que trabalhar no meu caso.
- O quê, você ainda não o fechou? O cara era doido. Pirado. Achou que era...
- Sim, eu entendi. "Achou que era frango e resolveu voar". Muito engraçado. Mas alguma coisa não faz sentido. Eu quero entender o que é, OK?
- Hey, é o seu funeral. Ou o dele. Ou dos dois, se você seguir o exemplo dele - Ele mostrou uma face séria e levemente triste, e voltou para seu escritório, balançando a cabeça, e Sean foi para seu próprio.

Ele passou a tarde pensando na "Ilusão". Do que seria a ilusão? O amor da sua esposa? O seu trabalho? O que, afinal, fez ele sorrir ao se jogar do topo de um prédio? A imagem do sorriso fez com que Sean tivesse um calafrio. Acabou cochilando em sua cadeira, e foi acordado pelo toque de seu telefone.

- Alô?
- Alô! Detetive Sean?! - Era a voz de Michelle, e parecia desesperada.
- Sim, houve alguma coisa?
- Dave, ele... Ele... - Sean entendeu então o que ela estava dizendo.
- Ele está morto. Achei que você já soubesse disso.
- Não! Não é isso! Ele me deixou uma carta! - O detetive esbugalhou os olhos.
- Uma carta? Mas... Como?
- Não sei. E eu não tive coragem de abri-la.
- Tudo bem, eu vou até aí, e eu irei ler tal carta - Sean deixou-se levar pela curiosidade.

O apartamento de Michelle era pequeno. Minúsculo, até. Nele, encontrava-se uma mulher chorando e assustada, segurando em suas mãos uma carta lacrada com o remetente de seu amante. Ela abraçou Sean, deprimida, e deu-lhe a carta. Ele a abriu, cauteloso. Como previra, mais incoerências sobre uma "Grande Ilusão", junto com um pedido de desculpas para Michelle. Ele fechou-a, sem revelar o conteúdo da carta para a pobre garçonete.

- O que diz na carta?
- Apenas... - Sean suspirou - Apenas uma confirmação de minhas suspeitas: Dave era louco.
- Não! Ele não... Ele não podia ser - Os olhos de Michelle se acenderam com incerteza. O detetive balançou a cabeça, e se preparou para ir embora.
- Sendo louco ou não, ele se matou. É aqui onde eu encerro o caso. Até mais, Michelle.
- Por favor, ele não se matou!
- E que outra pessoa teria matado ele?
- Eu... Eu não sei... Por favor, não vá embora.
- Não posso. Tenho que encerrar este caso ainda hoje.
- Quando Dave ainda era vivo... - Ela pareceu estar finalmente aceitando a morte dele - Ele costumava dizer que passar uma noite sozinha era como apostar na loteria: Você sempre perdia no final, não importa o que fizesse.
- Isso não faz sentido, Michelle. Muito menos o que ele costumava escrever, sobre uma tal "Ilusão".
- Eu... Eu sei. Eu apenas não quero ficar sozinha de novo. Não vá embora. Não até a noite terminar.

Sean nunca soube o que fez ele ficar. Talvez fosse o whiskey. Talvez fosse a depressão, ou talvez fosse a própria garçonete, por quem ele sentia uma grande atração. Ele estava acordado no escuro, ao lado dela, e saiu da cama, começando a se arrumar. Michelle sentiu a ausência do calor dele, e disse, enquanto sonhava "Dave... Volte para a cama...".

Então Sean entendeu. A loucura. O caderno. Scarlett, Michelle, sua ex-mulher. Entendeu tudo. Um suspiro havia feito-a entender, assim como havia destruído seu coração meses atrás. Ele terminou de se vestir, e correu do apartamento, deixando uma Michelle sem esperanças e solitária, no escuro que havia construído para si mesma - E para outros, se tivesse a chance.

Foi ao apartamento de Scarlett, que, surpreendentemente, já o aguardava, usando um decote que, sem falhas, deixou Sean pasmo. Ele sorriu, entendendo o que havia de fato acontecido. Ele entendeu tudo, afinal de contas. Aquela era a chance dele. Com um sorriso diabólico ainda percorrendo seu rosto, ele beijou sua nova mulher.

Sean acordou no dia seguinte, sorrindo. Levantou-se e vestiu, dando um beijo de "Adeus" em sua esposa. Saiu do prédio. Pegou o Metrô. Entrou no prédio aonde trabalhava, e, ignorando seu chefe, foi até o décimo quinto andar, aonde ficava seu escritório. Tirou seu paletó e sua gravata, e subiu no peitoril da janela. Virou-se de volta para seus colegas de trabalho - Agora horrorizados -, e pensou consigo mesmo:

"Eu não quero ser Dave McCloud"

Então ele sorriu.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Revelações, Bariloche e Outras Insanidades

"Pessoal, isto é muito, muito sério." Meu editor gritava com a equipe, sem piedade. Eu, no entanto, estava furiosamente ignorando-o, pois quando seu editor grita com você, a melhor coisa a fazer é ignorá-lo: Ele fica impotente e irritado, que nem quando alguém castra um filhote. A diferença é que eu sinto pena de castrar filhotes, claro.
"Se nós não conseguirmos mais publicidade, nós vamos falir!" - Com essa frase, eu tive uma epifania. Uma realização que mudaria minha vida para sempre, e que eu nunca poderia voltar. Eu me levantei, assustando a todos na sala que acreditavam que eu estava em um coma alcoólico – Isto é, todos – e gritei com todos os meus pulmões minha epifania:
"Espere um minuto! Eu tenho dinheiro suficiente para fazer uma viagem!" E saí correndo do prédio, decidido. Dirigi furiosamente até o aeroporto mais próximo – Uns cinqüenta quilômetros, se não estou enganado – E comprei a primeira passagem que pude para Bariloche. Então eu esperei doze horas até o horário do meu vôo, porque comprar passagens de última hora não funciona que nem nos filmes.
Duas horas antes do vôo, eu fui fazer o Check-In. Entreguei a bagagem de roupas de emergência que sempre deixava no meu escritório – Ela continha cinco trajes de roupa para calor e frio, um frasco pequeno de viagra e um pacote de camisinhas. E também Jack Daniels, claro – E levei a bagagem de emergência que roubei do escritório do meu editor – Não sei o que de fato ele guardava na bagagem, mas não resisti à tentação de roubar alguma idiotice dele.

"Senhor..." O segurança do detector de metais chamou minha atenção depois que eu tentei atacá-lo com um guarda-chuva que eu achei não-sei-aonde quando ele tentou pegar minha mala de mão. Ele era surpreendentemente atencioso e gentil "Por favor, ponha sua bagagem de mão no Raio X e passe pelo detector de metais, antes que eu decida que você é um terrorista e resolva atirar na sua cabeça por 'Defesa Própria', ok?" Extremamente atencioso e gentil.
"Promete que não vai roubá-la?"
"Sim, eu prometo."
"E muito menos falar para meu editor que eu a roubei?"
"Si... Espera, o quê?"
"Nada, nada. Vamos ao detector."

Eu sei que muitos de vocês provavelmente já previram como vai acabar essa história, mas vocês todos estão errados. "Por que?", vocês perguntam? Porque a Sorte me ama. Ou amava até eu prometer que ligaria na manhã seguinte e nunca mais falei com ela. A Sorte é surpreendentemente vingativa.

Eu passei pelo detector de metais, sem um pingo de problemas. Já estava começando minha "Dança Metálica da Vitória" – Criada exclusivamente para o acaso de se passar por um detector de metais sem o mesmo apitar, ou para a improvável relação sexual com um andróide de Blade Runner... Ou qualquer andróide, pra falar a verdade –, que consistia em uma dança metade erótica e metade "Dança do Robô" e completamente inapropriada para qualquer lugar, quando o segurança voltou a chamar minha atenção.

"Senhor, poderia, por favor, abrir sua bagagem de mão?"
"Eh..." Eu hesitei. Eu não sabia o que estava na bagagem de mão do meu editor, mas eu conhecia o Sérgio (Ou Paulo. Ou Ramón. Ou Hans... Acho que começava com "X"): Deveria ter no mínimo, uma AK-47 para minha eventual insanidade estilo O Iluminado "Tudo bem." E abri a mala. Assim que eu vi o que havia dentro, eu lancei para tal conteúdo o mesmo olhar que lançaria para um ornitorrinco sodomizando um elefante, ou para algum livro de Stephenie Meyer: O de nojo horrorizado.

Provavelmente, vocês devem estar curiosos para o que tem dentro da mala. Mas eu respeito muito o Gustavo (Ou Caio, ou Xenu, ou...), e ele me respeita muito também. Eu nunca seria capaz de discreditá-lo neste texto, e muito menos interferir com sua privacidade ao divulgar o conteúdo da mala dele, então eu sinto muito, mas eu não vos direi o que havia na mala.

"Três garrafas de lubrificante..." O segurança vai fazer isso por mim "Um par de algemas..." Então ele suspirou, e completou a lista "E um frasco de viagra" Hey, desastres acontecem em qualquer lugar "Isso é algum tipo de piada, ou você realmente pretendia passar com... Isso por aqui?" Ele apontou para o frasco de viagra, estranhamente, então eu notei-o com mais atenção: Era alto, muito mais alto que eu, tinha um cabelo castanho: Um pouco como o meu, só que menos cinza, e seu sotaque alemão (Ou poderia ser australiano, sou péssimo com sotaques) o tornariam o garoto propaganda da "Raça Superior" (Ou da censura australiana).
"Como você justifica tudo isso?"
"Bem, é que..." Eu tentei inventar uma resposta inteligente, sofisticada, hilária e que me deixasse sair sem culpa "Meu amigo, ele..." E assim que falhei, tentei culpar outra pessoa.
"Ah!" Os olhos do segurança se acenderam como chamas. Ou, para ser menos clichê, como as calças do meu amigo que, depois de beber o máximo que achava humanamente possível, olhou para uma vela e me disse – Ou melhor, me berrou – "Ei! Tive uma idéia genial!"
"Entendi." Ele continuou "Entendi completamente... Vocês dois são... Um casal?"
"Mas hein?!" Eu tentei compreender o que diabos ele quis dizer com aquilo "O que diabos você quer dizer com isso?!"
"Você e..." Ele deu uma olhada para as algemas "Seu amigo."

Eu me deparei, horrorizado, com duas escolhas: Ou eu era "inspecionado" pelo segurança, ou eu fingia ter um "Amigo" que me inspecionava. Obviamente, eu fui com a segunda opção. Meia-hora – E um telefone com os dizeres "Me liga!" que eu nunca iria em minha vida discar – depois, eu estava no meu assento, indo para Bariloche.

Em Bariloche, eu passei quinze segundos aproveitando o frio, oito aproveitando a neve, doze tendo a idéia de manchar a neve com meus fluidos corporais, um minuto manchando a neve com meus fluidos corporais, doze minutos sendo perseguido pela polícia de Bariloche por exposição em público, três dias na cadeia e quatro esperando para ser deportado de volta para o Brasil.

Dou para Bariloche três estrelas de dez.

***

domingo, 18 de julho de 2010

Ecos

Você sente a escuridão
Tomando seu corpo
Iludindo sua mente
Navegando por seus olhos.

No horizonte, você a vê
Uma luz, pequena e frágil
Você corre em sua direção
E cai por trevas intermináveis.

No canto de seu olho,
Você sente sua presença
Alguma coisa vermelha
Sem forma ou aparência.

Tatea sem sentido,
Procurando sem motivo.
Ensurdecem seus olhos
O relapso de cores.

Formas desfiguradas dançam
Rindo à sua volta.
Você as reconhece, furioso.
O traidor e o plagiador.

Elas riem de você
Com você
Riem do quê?
E fecha seus olhos.

O silêncio lhe acalma
Mas não te ilumina.
Você olha ao redor
Nem mesmo uma luz.

O silêncio ensurdecedor
A escuridão cegante
O nada palpitante
O vazio lhe causa dor.

Subitamente,
Em sua frente,
Você não acredita em seus olhos
Conforme a luz lhe favorece.

Uma explosão de luz e cores,
Alegres e tristes,
Cansadas e eufóricas,
Mortas e vivas.

Por entre cada uma dança um homem
Um homem de trevas,
Ele sorri conforme a música toca,
E ri quando o silêncio volta.

Sua forma é clara como a noite,
Sua voz trazendo gritos de terror
Seus olhos uma visão do Inferno
Seu toque, uma sensação de morte.

E você corre. Corre, e corre.
Escuridão adentro, tropeçando e caíndo
Ele anda calmamente,
Pulando e sorrindo.

Então você a vê
Uma fonte de luz.
Corre em direção à ela
Deixando os terrores para trás.

Mas a luz apaga,
E a escuridão lhe absorve.
Você sente seu corpo,
Sendo examinado, destroçado.

E por fim, na escuridão,
Você sente um último toque.
Ouve uma última nota.
Vê uma última pintura.




Sim, senhoras e senhores, eu estou de volta.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Sendo Parado por um Policial: O Que Não se Deve Fazer

Eu estava dirigindo um carro. Eu não gosto de carros, mas daquela vez valia a pena. Não era o meu carro, óbvio, era o carro de meu amigo Paulo. Eu tinha roubado o carro dele, pois ele me obrigou a assistir Avatar com sua companhia. Eu pretendia atiçar fogo nele, mas aí não teria mais ninguém para pagar minha fiança exceto meu editor.

Eu ouvi um "Hmmph!" no banco traseiro. Era a namorada do Paulo. Ou a mãe dele. Ou a irmã dele. Ou então uma mulher completamente sem relação com o Paulo mas que estava presa, amarrada, e amordaçada no banco de trás do carro dele por algum motivo que não consigo me recordar direito agora. Acho que eu só fui com a corrente mesmo.

Então eu ouvi as sirenes de um carro de polícia. Merda. Olhei para o espelho retrovisor, que estava pichado com imagens obscenas de genitálias humanas e um zebu. Era uma viatura de polícia, mandando que eu parasse. Meu primeiro instinto foi acelerar e tentar escapar, mas eu lembrei que, mesmo no carro do Paulo, quem iria preso seria eu. Então eu parei.

Por um momento, nada aconteceu. Então, para o total desespero da mulher/irmã/namorada/mãe/prostituta com muita má sorte, nada continuou a acontecer. Por fim, o nada disse "Foda-se" e foi tomar uns porres, permitindo que um policial saísse da viatura.

Eu vasculhei meu carro freneticamente, tentando achar algum tipo de alucinógeno, que eu sabia que estaria no carro do Paulo. Por fim, eu achei um saco com três pedras de Crack. Paulo sempre foi um retardado. Eu escondi na calça, que ficou parecendo uma ereção desafortunada. Mas pelo menos o tamanho poderia intimidar o policial, se eu tivesse sorte. Se eu não tivesse, poderia excitá-lo, e ninguém quer ver isso.

No porta-luvas, ou seja lá como chamam essa porcaria, eu achei uma banana, o que era inútil, já que porcos só comem bacon (Eu acho). De qualquer modo, joguei-a pela janela, torcendo para que ele se distraísse como um cachorro que vê uma bola.

Ele parou. Olhou para a banana e pôs a mão na cabeça, provavelmente pensando que eu era um racista. Ah, eu mencionei que ele era negro? É, eu acho que deveria ter mencionado antes. E a banana não foi exatamente a melhor idéia do mundo, agora que eu penso sobre isso.

Ele se aproximou da janela do carro (Ou seja lá qual seja o termo para esse vidro que não faz nada para te proteger de tiros), com uma postura intimidadora que me fez pôr a mão na cara. Ou então era o fato de que ele estava propositalmente mostrando a pélvis contra a janela. Um dos dois.

"Você sabe por que eu te parei?"

"Não, senhor, eu não sei." - Eu respondi, tentando fazer o meu dedo do meio levantado parecer o mais casual quanto possível. Então eu abri um grande sorriso porque, hey, policiais também gostam de sorrisos. E quem sabe assim eu confundia ele e conseguia escapar.

"A placa de seu carro está ilegível. Está pichada com alguma coisa sobre 'James Cameron pode chupar meu pênis azul!' por cima." - Ele manteve sua postura - E pélvis -, apesar da minha tática de confusão.

"Bem, isso foi uma coisa que meu amigo pichou. Mas não é nada demais, não é?"

"E o que essa mulher está fazendo no banco de trás, amarrada e amordaçada?!" Ele pareceu estranhamente surpreso em ver uma mulher de algemas, especialmente sendo um policial.

"É minha namorada. É dia de... 'Novelização'."

"Novelização?"

"Sim! É que ela adora esse tipo de coisa, entende? Ela adora ser amarrada, algemada, amordaçada e carregada no banco traseiro de um carro até aonde diabos quer que eu esteja indo."

"Senhor," Ele esfregou os olhos, obviamente estando cansado de minhas insanidades. "Tentar ocultar o número do seu carro é uma obstrução de justiça muito, muito séria. Agora, seqüestro é pior ainda."

"Err..." Eu tentei inventar uma resposta "Mas não deve ser pior que David Hasselhoff e Rosie O'Donnell transando, não é?"

O homem ficou embasbacado com a imagem mental que eu havia instalado em sua mente. Ou então com o fato de eu ter pensado em alguma coisa tão idiota e tão sem a ver com o assunto em questão. De qualquer forma, eu aproveitei a brecha para acelerar e tentar escapar de uma multa e uma prisão.

Ele me perseguiu longa e arduamente (Por aproximadamente quinze segundos), atirando frenéticamente. Eu teria escapado, mas quando se tratam de tiros, eu prefiro parar a porra do carro. O homem novamente saiu do veículo, dessa vez com uma pistola em mãos.

Eu, já desesperado, procurei meu carro feito um louco para achar uma arma. Qualquer arma. Embaixo do banco do motorista, eu achei uma colher. Não era muito, mas foda-se, era uma arma. Eu saí do carro, colher em punhos, e tentando parecer o mais ameaçador quanto possível.

Ele olhou para mim, exasperado, tentando se decidir se eu era insano ou se a colher era um explosivo altamente avançado. Ele se decidiu pelo primeiro, e foi chegando cada vez mais perto de mim. Eu brandi a colher, apontando para ele, e ele parou, apontando sua arma para mim.

Na beira da estrada, aconteceu uma luta de nervos de proporções bíblicas. A minha colher contra a pistola dele. Sansão contra Golias. Uma formiga contra um lobo. Luke Skywalker contra Darth Vader. Qualquer ser humano na Terra contra Clint Eastwood. Um zebu contra um Exterminador do Futuro. Um germe contra... Qualquer coisa.

O policial e eu nos encaramos por alguns segundos. Ele deu um passo para frente. Eu segurei a colher com mais força. Ele deu outro passo. Eu comecei a suar frio. Ele chegou o mais perto que pôde, e eu bati na testa dele com a colher.

"Ah! Seu filho da puta!" Ele xingou, enquanto me algemava. Por fim, eu passei a noite na cadeia. Uma Sexta como sempre.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

O Filho de Drácula - Capítulo Final

Mina Harker parecia desconsolada, dormindo em sua cadeira, amarrada. Nathan sentira por ela o que jamais sentira por uma mortal durante sua não-vida. Não tivera palavras.

Não conseguiu notar que Jonathan - Lars - e professor Van Helsing conversavam. Ouviu algumas palavras, e finalmente começou a escutá-los ao invés de fitar Mina.

- Não podemos invadí-lo com ela ao nosso lado!
- Mas, Herr Jonathan, se ela ficar assim por muito mais tempo, não será possível salvá-la de Drácula!
- Não me importa! Não irei expô-la à esse tipo de perigo!
- A escolha é sua, ou ela vem conosco, ou se torna escrava de Drácula. - Dito isso, Van Helsing se retirou do quarto. Lars começou a andar de um lado para o outro, e, recorrendo a velhos hábitos, começou a acariciar Mina.
- Sabe, - Nathan interrompeu-o, entrando pela janela - Quando você fazia isso com corpos que se moviam...
- Mestre! O que faz aqui! Van Helsing irá entrar aqui a qualquer minuto, e então estarás morto!
- Não se preocupe - Nathan formulou um plano. - Ele achará que apenas Jonathan Harker estará aqui.

Nathan segurou o pescoço de Lars, fitando-o. Transformou-se em névoa, e entrou pelas narinas dele. Seus olhos reviraram-se, seu corpo contorceu-se, mas por fim desistiu, aceitando um novo - Mais poderoso - Mestre.

No dia seguinte, Nathan pela primeira vez em meses contemplou o nascer do Sol. Admirou sua beleza, até que Van Helsing chamou-o. Era hora de atacar o Castelo de Drácula.

Depois de um desjejum escasso, partiram. A estrada era longa e sinuosa como ele podia lembrar, mas na luz do Sol era dez vezes menos assustadora. Embora a névoa ainda fosse densa.

Depois de algumas horas, chegaram aos portões góticos do Castelo. Abriram a porta pequena que nele se encontrava, e entraram sorrateiramente. Assim que entraram, Helga veio "Cumprimentá-los".

Van Helsing prontamente atacou-a, jogando alho em sua fronte. Ela ficou nauseada, mas retrucou, cortando um sulco em seu peito. Sangue jorrava, e ela cometeu seu pior erro, ao tentar bebê-lo.

Van Helsing, aproveitando a distração dela, decepou-a com um único corte de sua espada. Nathan ficara chocado com a visão de sua irmã, núa, decepada, com o corpo totalmente ensangüentado.

Atrás de si, Mina, carregada por seu pai, gritava encantamentos e maldições, e chamava por seu amor, Drácula. Uma fagulha de ódio vinda de Nathan percorreu seu corpo, e ele direcionou o grupo ao quarto de Drácula.

Como ele ainda dormia, Van Helsing esgueirou-se para perto dele, e, antes que ele pudesse reagir, enfiou-lhe uma estaca por entre seu coração, matando-o instantaneamente. Seu semblante mostrou-se pacífico, porém.

Mina Harker, por sua vez, se acalmou, recobrando a consciência. Saiu dos ombros do pai, e se jogou contra Nathan, beijando-o. Todo o grupo foi embora, exceto os dois.

- Oh, querido! Sinto muito por tudo que lhe fiz passar...
- Tudo? Não se preocupe. Drácula está morto, esse é o importante.
- Meu querido, não está bem?
- Bem? Estou ótimo - Nathan saiu do corpo de Lars, matando-o. Antes que Mina gritasse, ele fechou sua boca com suas mãos - Estou morto.
- Quem... Quem é você? O que fez com meu marido?
- Acalme-se, seu marido morrera nas mãos de Drácula, muito tempo atrás. Este era um impostor. E agora sei porque Drácula a queria para si. Eu mesmo a quero... De fato, acho que eu mesmo farei o que ele não conseguiu.
- Afaste-se! Monstro ou não, não serei violada!

Mas palavras nada adiantaram. Nathan jogou-a contra a parede, e beijou-a. Com as mãos, arrancou suas roupas. Mina tentou lutar, mas não conseguiu resistir. Desistiu de lutar, e deixou Nathan usá-la, enquanto acordava para a nova vida.



E assim acaba, caros leitores, a saga d'O Filho de Drácula. Espero que tenham gostado, e vejo vocês na Quarta que vem.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Minha Noite de Sexta-Feira (Segundo Testemunhas Oculares)

Fui acordado por um tapa na cabeça. Não era um tapa amigável. Não era nem ao menos o tipo de tapa que te pague um jantar e flores antes de te estapear. Era um tapa violentador de cabeças. E a vítima era minha nuca.

Movi minhas mãos de forma limitada, reconhecendo as familiares algemas prendendo meus pulsos atrás da cadeira na qual me sentava. Olhei para o dono do tapa agressor, me perguntando se eu poderia processá-lo por danos morais. Desisti da idéia: Era um policial, e não uma mulher que gosta de ser “Dura”.

– Bom dia senhor Biancardine.
– Não me chame de senhor. – O policial fitou-me com raiva.
– E por que não deveria?
– Faz eu me sentir velho.
– Senhor...
– Quero dizer, eu sei que tenho um pouco de cara de velho, cabelos brancos, etc... mas eu não sou velho!
– Cale a boca! – O policial me interrompeu, sendo rude como a maioria dos policiais que eu conhecia.
– Pelo menos se desculpe pelo tapa que você deu na minha cabeça. Foi rude, e eu me senti violentado. – Ele piscou duas vezes, não acreditando no que eu tinha acabado de falar.
– C... Como?
– Bem, você sabe. Eu não te dei permissão para me estapear. Não foi consensual. Foi um estupro de tapas. – O policial levou a mão à face, balançando a cabeça.

A porta abriu com um estouro. Por ela entrou caindo uma mulher desajeitada, que também usava um uniforme policial, o que era uma pena, pois ela era bem agradável aos olhos. Ela se levantou, se desculpando. Ela parecia mais amigável e disposta a engolir minhas idiotices, então eu me concentrei em conversar com ela.

– Senhor Biancardine...
– O que eu disse sobre me chamar de senhor?
– SENHOR Biancardine, esta é minha parceira, Lúcia.
– Olá, Lúcia – Eu esbocei um sorriso na escuridão da sala de interrogação.
– Boa tarde, boa tarde.
– Espere! Já é de tarde?
– Sim, são quatro e meia da tarde.
– Huh – Eu cocei meu queixo, pensativo – Meu editor irá à loucura tentando me encontrar então.
– Você quer ligar para ele? Nós te damos quinze minutos – Lúcia ofereceu, obviamente sendo a policial amigável da dupla.
– Não, não. É divertido aterrorizar o Paulo.
– Bem, Sr. Biancardine, há uma boa chance de que o seu editor esteja morto.

Um silêncio tomou conta do quarto. Lúcia colocava objetos na mesa, com certo medo de tocar em alguns. Era compreensível. Metade dos objetos que eu possuo são mandados para serem queimados depois que eu me desfaço deles.

– Como... Como que ele morreu?
– Com isso – Ele levantou um pedaço particularmente grande de algodão doce, que parecia suculento.
– Ah. Então ele morreu de forma honrosa... Tendo um ataque cardíaco?
– Não. A máquina de algodão doce que o Senhor Roubou de uma feira explodiu no seu escritório, segundo quinze testemunhas. A explosão matou metade de seus colegas de trabalho, e machucou severamente os colunistas e seu editor, que estão num hospital.
– Ufa! Ainda bem. – O policial que ainda não me disse seu nome me olhou torto.
– Bem – Eu expliquei – É que o Paulo sempre quis morrer... Sendo explodido por algodão doce.
– Mas e a hiena que você mantinha numa jaula embaixo do escritório de um tal de “Sandro”?
– Bem, em minha defesa, o Sandro sempre ficava rindo de tudo, então ele nunca percebeu a hiena que eu mantive embaixo da cadeira dele por um ano.
– Sim, Sr. Biancardine, esse é o problema. Você manteve um animal ilegal embaixo da cadeira do seu colega, sem comida e sem água. É um milagre que ela tenha sobrevivido por dois anos.
– Só se você chama os hábitos alimentares do Sandro um “Milagre”. – Eu sorri, tentando ser o mais charmoso quanto possível. Aparentemente não funcionou, mas eu consegui improvisar uma piscadela para Lúcia, que anotava tudo veemente.
– Senhor Biancardine... – Ele continuou, ficando sem paciência. Meu estômago roncava – Quando a máquina de algodão doce explodiu – Ei, o algodão ainda estava em cima da mesa. Será que eu conseguia comê-lo sem o policial perceber? Bem, se não tentasse, eu nunca iria descobrir – A gaiola da hiena se soltou. E ela, faminta, começou a devorar os seus colegas e... Afinal, mas que merda o senhor está fazendo?! – Ele interrompeu seu discurso quando me viu debruçado sobre a mesa, comendo o algodão doce.
– Eu estou com fome.
– Escute. A sua hiena devorou oito pessoas antes que pudéssemos prendê-la.
– Hey, ela nunca foi minha. Era do Sandro. Prendam ele.
– Ele está no hospital. A hiena lacerou severamente a genitália dele. – Nesse momento, eu caí da cadeira rindo.
– Ah! Uau! Que... Uau! Genial. Genial. Simplesmente genial... – Eu disse, enxugando as lágrimas de tanto rir. – A ironia é uma coisa cruel, não é, oficial... Bochechas?
– Bochechas?
– Você nunca me disse seu nome, então eu estou inventando um para você.
– Meu nome é Hugo.
– Tarde demais, Bochechas.
– Ugh. Dane-se. Senhor Biancardine, não só você explodiu boa parte do prédio aonde você trabalhava, como também sua hiena devorou oito pessoas. Uma delas sendo um dos políticos mais respeitados da região.
– Espere, vocês me trouxeram aqui para me parabenizar?
– Não! Suas ofensas são muito sérias, senhor Biancardine. E o que você tem a me dizer disto? – Ele levantou um... Quadrado. Parecia pesado, e era preto.
– O que diabos é isso, Bochechas?
– Pare de me chamar de Bochechas. Isto é o objeto que você, e eu cito de uma de nossas testemunhas, “Usou para matar a hiena que estava mastigando o corpo de uma mulher, e então usou a pele da hiena como cinzeiro. Depois disso, ele perguntou se a mulher gostaria de ‘Ir dançar com ele e o Jaguar nas suas costas’. A mulher correu, e o homem começou a xingá-la, jogando a pele de hiena coberta com algodão doce no esgoto.
– Como vocês podem saber que era eu?
– “O homem tinha mais ou menos um metro e meio de altura, cabelos castanhos, com algumas mechas destoadas, usava uma jaqueta de couro com uma camisa do Pink Floyd, e uma calça Jeans levemente rasgada.
– Ainda não estou convencido – Eu retruquei, cobrindo minha camisa do Pink Floyd o melhor que podia enquanto algemado.
– “Então ele bebeu uma garrafa de Jack Daniels enquanto perguntava se alguma mulher gostaria de ‘Aprender como que se fazem as coisas na estrada.”
– Ok, era eu. Mas eu nego todo o resto!
– Escute aqui, seu pedaço de... Escute. Você matou várias pessoas, traficou uma hiena, foi cruel com tal hiena, e ainda por cima expôs-se para diversas mulheres. O que você tem a dizer em sua defesa?
– Eu só quero um pouco de algodão doce, estou morto de fome... – O Bochechas atirou o quadrado preto na minha testa. Eu estava certo, ele era pesado.
– Esqueça a porra do algodão doce! Você vai passar anos na cadeia, seu degenerado!
– Mas... Eu sou jornalista!
– Jornalista? – Bochechas e Lúcia trocaram olhares, preocupados – De qual... Jornal?
– Nave da Loucura. Eu sou um colunista e escrevo crônicas de comédia.
– Ah. Bem, senhor Biancardine, porque nós não esquecemos esse episódio, e você vai escrever bem sobre a gente?
– Com uma condição – Eu aproveitei a oportunidade, claro –: Eu quero esse algodão doce. Ah, e se puder me dar o telefone da Lúcia ali, eu ficarei muito agradecido. – Eu pisquei para ela, que retribuiu a piscada. Sorte a minha, acho.
– Eh... – O Bochechas levou uma das mãos à face, não acreditando no que iria fazer. – Tudo bem. Aqui o algodão doce. Vou tirar suas algemas... – Ele tirou minhas algemas – E você está livre para ir embora.
– Hey, se importa se eu ficar com as algemas? Eu conheço uma amiga que irá adorá-las.
– VÁ DE UMA VEZ! – Eu considerei isso como um sim, e saí correndo.